pequisando
Peste de Atenas

A Peste de Atenas

Informe-se sobre a primeira epidemia relatada, ocorrida por volta do século V a.C.!

Peste de Atenas

A Peste de Atenas

Autores: Gustavo da Silva Lima e Fabiana Pereira

Revisão e curadoria: Breno Mendes

O que foi a Peste de Atenas?

A Peste da Atenas foi uma das grandes epidemias da história e foi interpretada na obra de Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. Essa obra narra um conflito entre a Liga de Delos, liderada por Atenas, e, a Liga do Peloponeso, liderada por Esparta, que durou de 432 a.C a 404 a.C. Durante o conflito, a cidade de Atenas foi assolada por uma peste que dizimou grande parte da população.

Na obra de Tucídides temos uma descrição precisa dos sintomas da doença:

No começo do verão, os peloponesos e seus aliados invadiram o território da Ática (região onde se situava Atenas). Firmaram seu campo e dominaram o país. Poucos dias depois, sobreveio aos atenienses uma terrível epidemia (...). Jamais se vira em parte alguma açoite semelhante e vítimas tão numerosas; os médicos nada podiam fazer, pois de princípio desconheciam a natureza da enfermidade e além disso foram os primeiros a ter contato com os doentes e morreram em primeiro lugar. A ciência humana mostrou-se incapaz; em vão se elevavam orações nos templos e se dirigiam preces aos oráculos. Finalmente, tudo foi renunciado ante a força da epidemia. [...] Em geral, o indivíduo no gozo de perfeita saúde via-se subitamente presa dos seguintes sintomas: sentia em primeiro lugar violenta dor de cabeça; os olhos ficavam vermelhos e inflamados; a língua e a faringe assumiam aspecto sanguinolento; a respiração tornava-se irregular e o hálito fétido. Seguiam-se espirros e rouquidão. Pouco depois a dor se localizava no peito, acompanhada de tosse violenta; quando atingia o estômago, provocava náuseas e vômitos com regurgitação de bile. Quase todos os doentes eram acometidos por crises de soluços e convulsões de intensidade variável de um caso a outro. A pele não se mostrava muito quente ao tato nem também lívida, mas avermelhada e cheia de erupções com o formato de pequenas empolas (pústulas) e feridas. O calor intenso era tão pronunciado que o contato da roupa se tornava intolerável. Os doentes ficavam despidos e somente desejavam atirar-se na água fria, o que muitos faziam. [...]” (TUCÍDIDES).

A Peste de Atenas foi considerada como castigo divino?

As características da enfermidade se assemelham às da febre tifoide, doença que atualmente já possui vacina e tratamento. Outras doenças também foram descritas em textos da Antiguidade, como na Ilíada, por exemplo. Porém, ao contrário de outras moléstias, a Peste de Atenas não foi atribuída ao deus grego Apolo, deus da medicina e da cura que, segundo a mitologia, em momentos de cólera disparava flechas com enfermidades em diversas cidades. As epidemias que eram ocasionadas por Apolo poderiam ser facilmente sanadas, se houvesse um direcionamento profético advindo de um oráculo, que mostrava o motivo da cólera divina e como ela poderia ser aplacada.

Quanto a isso, Tucídides afirma que mesmo a consulta a oráculos não surtia efeito, pois os mesmos não conseguiam oferecer qualquer resposta a uma peste de que não era resultado do castigo divino. Os médicos da época também não detinham o conhecimento sobre o possível tratamento da doença, por isso, uma grande parte da população infectada faleceu.

A Peste de Atenas e a crise política e religiosa

Um dos efeitos da doença sobre Atenas foi o aumento da instabilidade política e religiosa. Tucídides relata uma grande apatia por parte dos doentes, porque as esperanças de sobrevivência eram mínimas, fazendo com que a organização social da polís fosse enfraquecida, concedendo ao inimigo de guerra grande vantagem.

Quais as lições da Peste de Atenas?

Procópio de Cesaréa relata sobre uma peste que acometeu Bizâncio no século VI D.C. Segundo o autor, a doença teve sintomas relativamente parecidos com os da peste ateniense. A moléstia surgiu em meio às guerras do Império Bizantino (Império Romano do Oriente) contra os Persas e dizimou grande parte da população da região, sendo considerada por algumas interpretações como a primeira pandemia da história. Tanto Tucídides, quanto Procópio eram orientados pela ideia de que a história era mestra da vida (Historia Magistra Vitae). Por isso, eles escreveram narrativas que servissem de lição e exemplo para as pessoas das gerações posteriores que, por acaso, fossem acometidos por males semelhantes, o ataque de uma doença mortal e desconhecida. As narrativas dos historiadores em questão, relatam minunciosamente as posturas de líderes políticos da época, no caso de Tucídides, Péricles, e, no caso de Procópio, o imperador Justiniano. Nos dois casos, havia a expectativa de aqueles que olhassem para o passado, aprendessem lições sobre a natureza humana para agir melhor no presente.


________________________________________________________________________________________

Instagram: @pequisando

link da postagem: https://www.instagram.com/p/CMfp4OCHTnY/

Quer saber mais sobre a Peste de Atenas?

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=fUcWhqlXK9E

Textos:

A peste em Tucídides e dois antecedentes poéticos (Estado da Arte)

https://estadodaarte.estadao.com.br/peste-tucidides-antecedentes-marcio-maua/

A peste em Atenas: lições para os tempos de pandemia de COVID-19 (Voluntas)

https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/viewFile/47977/pdf

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Trad. Mario Da Gama Kury. Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1987.

Disponível em:

http://funag.gov.br/biblioteca/download/0041-historia_da_guerra_do_peloponeso.pdf

BAPTISTA, Lyvia Vasconcelos. Procópio e a reapropriação do modelo Tucidideano: a representação da peste na narrativa histórica (VI século d.C.). Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás. Orientadora: Ana Teresa Marques Gonçalves. Goiânia.2008.

Disponível em:

https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tde/2351/1/Dissertacao%20Lyvia%20Vasconcelos%20Baptista.pdf

LIMA, Alexandre Carneiro Cerqueira. A peste em Atenas de Péricles. In: ALMICO, Rita de Cássia da Silva; GOODWIN JR, James William; SARAIVA, Luiz Fernando (Organizadores). Na saúde e na doença: história, crises e epidemias: reflexões da história econômica na época da covid-19. São Paulo: Hucitec, 2020.

Disponível em:

http://www.huciteceditora.com.br/_imagens/_downloads/na_saude_e_na_doenca.pdf